ERASTO GURGEL BANHOS viveu intensa e alegremente de 1919 a 1991. Meus agradecimentos especiais à D. Odete (viúva) e aos filh@s Celia, Nice, Vavá e Eliton Banhos que, amorosamente, cederam material e depoimentos valiosos para o blog.
O blog é em homenagem à vida e à obra deste grande ser humano que há 20 anos foi brincar em outras paragens, à beira d'água. Viva o Palhaço Alecrim, Viva Erasto Banhos, sempre!!!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O MANGAL DO PATESCO

Mais uma matéria que cita nosso Erasto Banhos, o Palhaço Alecrim. Tá no blog do médico e escritor Sérgio  Martins Pandolfo:

http://sergiopandolfo.com/visualizar.php?idt=3437525

O MANGAL DO PATESCO
                      
                      Sérgio Martins Pandolfo*  

   Há certos fatos que vivenciamos ao longo da vida que ficam marcados de forma indelével, em nossas mentes. Reminiscências que se nos afloram de quando em quando de coisas fundamente arquivadas nos escaninhos da memória. Entre tantos outros lembramo-nos de lugares, costumes e tipicidades desta Belém já prestes a virar quatrocentona que nos acudiu ao fazermos uma rememoração, com amigos coevos, de episódios passados, vividos, que já não voltam. Estávamos aí pela altura da década de 1950 a primórdios da de 60 e como todo jovem sadio e de bem com a vida e com as obrigações escolares, gostávamos – e muito! – de uma boa farra nos finais de semana. Íamos, quase sempre às sextas-feiras, a uma das tantas festas dançantes que se realizavam pelos quarteirões arrabaldeiros desta “cidade morena” e no sábado pela manhã cedinho, após tomarmos uma revigorante cuia de tacacá bem quente e traçarmos umas tapioquinhas molhadas no Ver-o-Peso, pegávamos o “Almirante Alexandrino” de evocativa memória e nos mandávamos para Mosqueiro a curtir a ressaca nas praias daquela “bucólica” ilha, como a etiquetou o Pierre, de lá só regressando no domingo à tardinha. Naqueles idos, de insubsistentes meios de comunicação, nossa mãe ficava pressurosa e angustiada, sem saber, às vezes, por onde andávamos, por isso que cremos esteja ela a gozar as delícias do Reino Celestial, tais as inquietudes que involuntariamente lhe causamos. Tempos saudosos, gloriosos, esplendorosos,

   Mas queremos aqui deixar registrada uma faceta desta saudosa Belém doutrora, que curtíamos a não mais poder pelo geral às sextas-feiras, antes de ganharmos o mundo nos tantos furdunços desta festeira urbe. Havia na Praça da Condor (Princesa Isabel), uma tasca de venda do bom e saudável caranguejo toc-toc, à moda parauara, que exibia o sugestivo nome de Mangal do Patesco. Situava-se mesmo na praça, confronte ao “monumental” Palácio dos Bares, ou simplesmente Bar da Condor, de propriedade de João de Barros, apregoado  "rei da noite", onde o Erasto Banhos (que nos programas de auditório da TV Marajoara era o palhaço "Alecrim"), com voz cerimoniosa e empostada anunciava, a intervalos, o ingresso dos frequentadores mais notórios e assíduos, mais ou menos assim: “Acaba de adentrar no recinto desta casa o Dr. Fulano de Tal, que se faz acompanhar das finas senhorinhas Fulana e Sicrana, a quem damos as nossas boas-vindas e apresentamos nossos cumprimentos”.
   A tasca do Patesco ficava a bem dizer somente com a frontaria de madeira fincada no chão da praça, pois que o corpo do casebre, em cujo interior dispunham-se os conjuntos de mesas e cadeiras firmava-se sobre estacas fincadas no fundo das águas da baía do Guajará, onde seu proprietário, por meio de uma cercadura, estabeleceu seu próprio criatório do gostoso crustáceo (daí o “mangal”), de tal sorte que lhe bastava descer uma vara com o puçá para apanhar os rubicundos uçás que, após rápida, mas hábil limpeza com vassourinha eram lançados ao caldeirão com água permanentemente a ferver, a fim de atender aos pedidos dos fregueses. Àquela época os “carangos” eram grandes e carnudos, bem diferentes dos de hoje, jitinhos e descarnados, e nos meses sem erre, quando se punham gordos, constituíam-se em manjar supimpa que fazia a fama do Mangal. 

   Contudo, o pitoresco mesmo dessa história é que na birosca do Patesco havia um enorme e obeso carneiro branco que, como os fregueses, apreciava, ou melhor, deliciava-se com uma “loura gelada”, que ele sorvia em fartos goles nos copos oferecidos pelos fregueses da casa. O lanoso ovino também era chegado a pitar um cigarrinho (dos legais, é claro), do qual chupava o fumo e soltava em fartas baforadas. Assim, quando chegávamos mais tarde, aí pelas madrugadas, o pacato animal, já às quedas, esperava-nos para mais uma etílica (e fumacenta) sessão boêmia. 
   É isso, amigos. A saudade dói e, às vezes, mata. A replicar asfilosófico-poéticas palavras de Neruda: “A saudade é solidão acompanhada (...) é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca (...) saudade é sentir que existe o que não existe mais”.
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*Médico e escritor. ABRAMES/SOBRAMES
sergio.serpan@gmail.com  -  serpan@amazon.com.br www.sergiopandolfo.com
Sérgio Pandolfo
Enviado por Sérgio Pandolfo em 12/01/2012
Alterado em 13/01/2012



Comentários
13/01/2012 15:19 - DIVONSIR JOSÉ PANATTO [não autenticado]
Suas escritas é altamente senciveis aos seres humanos. É uma delicia ler seus textos, que sempre recomendo para os amigos, admiradores de escritas como as suas. É um devaneio, delirio, total, vagando, devagando...como vc mesmo diz; indelével. Só para completar seu texto que acabei de me deliciar, tenho as seguintes informações: Pelo menos até há uns meses, este local ainda existe e mais... à qualquer hora do dia e da noite. Se às 3 da manhã quiser degustar um "carango", feito na hora, o Damião, irá em poucos minutos serví-lo, com àquela farinha d´agua, e o vinhagrete ainda servido com um grande "pires" de aluminio. Detalhe: à qualquer hora e à qualquer dia. Detalhe nº2: Só depende de ter "coragem", face o local. Detalhe nº3: O preço é discreto. Detalhe nº4: É gostoso e feito na hora. Detalhe nº 5: Se vc estiver na Assembleia Paraense, ou no Dedão da "vida", ou no Gatinho ou em qualquer dos 26 lugares que servem este crustácio, pelo menos dos que os conheço... que qdo vou à Maringá, minha terra, minha mãe não deixa eu "vestí-los" em suas arriadas panelas de aluminio, ela me "empresta" umas latas que ela quarda para armazenar algumas toalhas de limpar as pias, dai então se depois de todos estes lugares ñ tiver esta delicia, vá direto "pra" o final da Alcindo com a Bernardo Sayão e comprovará. Grande e forte abraço, seu amigo panatto.

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